A IA me mostrou que eu sabia menos do que pensava
Charlie é inglês e está morando no Brasil. Com as eleições de outubro se aproximando, começamos a conversar sobre política. Em certo momento, ele contou que tem um amigo que se diz comunista. Respondi a partir do que essa palavra costuma significar para mim, aqui no Brasil.
Percebi que eu associava o tema a experiências de ditadura e a um peso moral muito forte. Para Charlie, naquela conversa, a palavra remetia mais à discussão sobre um regime político. Não estou dizendo que todos os brasileiros ou todos os ingleses pensam como nós dois. Mas aquela diferença já era suficiente para mostrar que havia muito a conversar.
Colocamos a IA na conversa. A primeira pergunta sobre comunismo puxou outra, depois outra. Quando vimos, estávamos tentando entender como funciona a propriedade na Rússia, na China e na Inglaterra. Eu comecei a perceber que parte do que sabia estava desatualizada.
Não saí dali com uma opinião pronta sobre política. Saí com perguntas melhores, o que, para mim, foi bem mais valioso.
Já contei que converso bastante com uma IA. Mas aquela tarde com Charlie me lembrou de um uso que quase desaparece no meio de tantas promessas de produtividade: aprender por curiosidade. Sem prova marcada. Sem precisar fingir que entendi. Posso pedir outro exemplo, voltar ao começo, comparar duas ideias e continuar até a dúvida ganhar alguma forma.
Isso exige um pouco de cuidado. Em política e em assuntos que mudam com o tempo, uma resposta bem escrita pode estar errada ou misturar fatos de épocas diferentes. Se algo me surpreende, peço a fonte e confiro antes de repetir como verdade. A questão sobre qual IA merece nossa confiança também aparece quando usamos a ferramenta para estudar, não apenas quando ela fala com nossos clientes.
Em outra ocasião, usei essa disposição de conversar com a IA para algo bem menos sério.
Aluguei uma casa pé na areia na Praia do Espelho, um lugar de que gosto muito pela tranquilidade. A casa providencia uma lista de compras, e nós conferimos os itens e ajustamos as quantidades antes da viagem. Quando cheguei, enviei aquela lista ao ChatGPT. Depois abri o modo Live e fui até a geladeira.
Eu abria a porta, dizia em voz alta o que encontrava e ele ia marcando os itens. Quando eu esquecia de falar a quantidade, ele perguntava. Terminada a geladeira, fui à despensa e fiz a mesma coisa. Era uma conferência de verdade, com idas e vindas, não apenas um comando digitado pedindo outra lista.
No fim, pedi uma relação só do que faltava. Apareceram água com gás, limão-siciliano e um erro na quantidade de leite. Sem essa revisão, no dia seguinte eu não tomaria minha gin tônica.
Não foi uma aula sobre política ou economia. Foi, porém, o mesmo hábito de admitir que talvez houvesse algo fora do meu campo de visão. Com Charlie, faltavam perguntas. Na casa, faltavam compras.
Penso em quantas vezes isso acontece dentro de uma pequena empresa. Alguém monta uma proposta e não percebe que esqueceu uma etapa do serviço. Outra pessoa olha o preço de venda e não entende por que a margem desapareceu. Nesses casos, a IA pode ajudar a revisar o processo ou explicar o conceito que falta, desde que a equipe confira as respostas e não exponha dados confidenciais em contas pessoais. Não estou contando um caso de cliente aqui; são exemplos do que poderíamos fazer.
Há alguns anos, escrevi sobre como o treinamento contínuo pode reduzir erros e desenvolver a equipe. Continuo acreditando nisso. A IA não substitui um bom profissional nem um treinamento planejado, mas permite que uma dúvida apareça e seja explorada na hora. Uma pessoa pode pedir uma explicação simples sobre margem de contribuição, testar um exemplo com números fictícios e então levar perguntas melhores a quem cuida das finanças.
Se a revisão evita refazer uma proposta, ou se o aprendizado ajuda a formar um preço melhor, o benefício deixa de ser apenas intelectual. Ele aparece no tempo da equipe e no resultado da empresa.
Gosto da rapidez da IA, claro. Mas não é isso que mais me interessa. O melhor momento é quando ela me ajuda a perceber que minha pergunta era pequena demais ou que eu tinha deixado alguma coisa passar.
Às vezes, é uma ideia que estava desatualizada. Às vezes, é o limão da gin tônica.

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